quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Gozando Liberdade

O medo de pecar fora anulado pelo delírio, por corpos rígidos, latejando de prazer. Meros desconhecidos, acolhidos pelo ar quente das brisas de verão. Vem o vento, o frescor na pele distrai, mas o ardor do toque não se apagava, era mais que pele. O suor doce, provindo do êxtase, exalava no ar, instigava mordidas canibalescas, como uma poção de Afrodite.
Condenados a uma mesma sentença, pularam no mar, noite adentro, rasgaram as roupas, despindo-se das paranoias, na escuridão sem fim, hipnotizantemente negra. Entre sopros de brisas e misturas de cores e sabores, as sensações incitavam os sentidos… Bocas, olhos e peles. Desnudos, cheiravam a amor, na areia da praia.
As ondas sussurravam insanidades, tocando os corpos jogados à beira mar, e voltavam a beijar o mar, com a notícia de que mais alguns se salvaram. Talvez apenas mais alguns loucos fugitivos. Despudorados, sem tempo na agenda para a moral ou os bons costumes.  Fisgados como que por anzóis um pelo outro, encaixados perfeitamente sob o teto de estrelas e luar de prata.
Olhavam-se famintos, como selvagens que, no fundo, todos somos. Talvez fosse mais que carne, mas não atentariam para algo tão irrisório em momentos como aqueles. Qualquer palavra ou sentimento não os definiriam. Invadiam as nucas com os lábios, exalavam suor, sensibilizavam o tato, deliravam com a visão dos próprios movimentos, entregavam-se ao instinto. Viviam um verdadeiro festim de sentidos, um zigue-zague de almas.
O ponto alto daquelas insanidades noturnas fora a desintoxicação de qualquer poluição mental. Independente de qualquer regra ou ordem imposta, eles dançaram aos sons da noite, meio descompassados. No fim, estamos todos presos em gaiolas bem menores que nós, nem notamos até sermos libertos, e a liberdade assusta, atrai, como tudo o que é novo. Um dia me disseram que usá-la de forma errada é só mais uma prisão, acompanhada quase sempre de impulso. Pelo menos naquele instante, mesmo presos um ao outro, foram livres. Como se a liberdade fosse um sentimento simples e tangível.

Thaís Bitencourt

toques especiais Alamo Henrique.

domingo, 9 de dezembro de 2012

O meu pavor é que as palavras sucumbam ao nosso desalento, que a nossa ligação se rompa. Eu temo que o nosso código pessoal entre na contramão quando todo esse arrebatamento efervescente se tornar apenas gás. Sem forma, nem volume definidos, em um movimento aleatório, solto demais para o amor ressublimado.
— Thaís Bitencourt

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Misturou-se o fio a outras fibras até se conseguirem novos tecidos.


Todos possuem uma incessante busca pelo amor. Amor não é um termo intocável, ou um mistério indescritível. Muito pelo contrário, amor é cotidiano. Amor é prático. É a prática que te desafia sem “práticos” e tecnológicos botões, sem “truques” de mágica, sem controle e sem manual de instruções.  Clamamos por amor. Amar é acordar, é viver, também é desfalecer, é sorrir, é chorar. Amar é costurar. É unir tecidos mortos e inteiramente desintegrais, de estampas antigas, coloridas ou cinzas. Costurá-los a mão, dando seu próprio toque de afeição e vida, com a linha dourada mais rígida que encontrar. É fazer em cada casa de botão, ínfimos pontos vermelhos de sangue no dedo, ainda assim continuar. É laçar delicadamente as mais finas sedas representando todo carinho preciso e ao mesmo tempo unir com ardor os nós de fidelidade. Aquela roupa vai ganhando formas separadas, mas, ás vezes, é preciso trocá-las, recolorir ou retocar cada uma e assim o resultado nunca é alcançado. E usa-se um manequim que vive, mesmo com pedaços despidos, linhas soltas, acabamentos ainda não terminados. Ainda que com alfinetes esquecidos e retalhos escondidos. Manequins vivos, presos em vitrines transparentes que denunciam suas feridas. Cuida você mesmo dos seus rasgões. Escolha a sua inspiração, rabisca teus desejos numa folha e trata de, com suas próprias mãos e esforço, torná-los reais. Misturou-se o fio a outras fibras até se conseguirem novos tecidos, contudo muitos nascem com defeitos, até reparáveis, só que faltaram forças nos nós. Olha-se no espelho enorme, se vê dos pés á cabeça, Vê, mas não repara. Não se toca que o que precisa de glitter são os seus olhos. Para com essas anáguas, tecidos adamascados, seda ou neon, Você nunca estará completamente pronta para festejar a vida. E não queira estar pronta, pois depois não há mais o que fazer. Pronta. Olha que termo concluído, terminado, desimpedido. Não, melhor me deixar assim. Por isso serei uma eterna estilista. Assimétrica, que seja. Nunca desfilarei minhas dores. Não irei aceitar calada e magra, a moda desses homens sem humanidade que desfilam pálidos e sem cor. Serei julgada por momentos em que irei ignorar toda vaidade, todos os espelhos, momentos que não vou caber nestes espartilhos de ideais. Enfrentarei as curvas, de outras cinturas, vestida de pijama, para quando precisar fugir, onde estiver, estarei pronta para deitar e dormir. E sonhar! Protege-se ou se ilude com um casaco preto. Revive a infância em todos os tons de rosa. Faz a tua marca, a tua farda que caiba no teu estilo. Abre uma fenda, se isso te dá prazer. Põe um vermelho na boca, apesar de toda estampa colorida, se isso te faz sorrir. Sabe aquele vermelho que te exalta e te deixa poderosa? Arranca ele do armário e usa, não só usa, ousa! Veste a alma de poder e sedução (Amar não é só costurar, é ousar). Serei uma eterna estilista, com mente aberta, sem aviamentos, leve, livre de qualquer opressão do novo jeito de amar e viver. Meu foco será o keviar.Quero me despir da malha que demarca e me vestir do sintético dos astronautas. Eu quero extrapolar a moda de amar. Amor se descobre na prática, Amar é viver, viver é amar. Despi minha’lma sem medo e de tão leve, estou a flutuar. Acompanha-me nessa nudez?

Thaís Bitencourt, eterna estilista despida.