O medo de pecar fora anulado pelo delírio, por corpos rígidos, latejando de prazer. Meros desconhecidos, acolhidos pelo ar quente das brisas de verão. Vem o vento, o frescor na pele distrai, mas o ardor do toque não se apagava, era mais que pele. O suor doce, provindo do êxtase, exalava no ar, instigava mordidas canibalescas, como uma poção de Afrodite.
Condenados a uma mesma sentença, pularam no mar, noite adentro, rasgaram as roupas, despindo-se das paranoias, na escuridão sem fim, hipnotizantemente negra. Entre sopros de brisas e misturas de cores e sabores, as sensações incitavam os sentidos… Bocas, olhos e peles. Desnudos, cheiravam a amor, na areia da praia.
As ondas sussurravam insanidades, tocando os corpos jogados à beira mar, e voltavam a beijar o mar, com a notícia de que mais alguns se salvaram. Talvez apenas mais alguns loucos fugitivos. Despudorados, sem tempo na agenda para a moral ou os bons costumes. Fisgados como que por anzóis um pelo outro, encaixados perfeitamente sob o teto de estrelas e luar de prata.
Olhavam-se famintos, como selvagens que, no fundo, todos somos. Talvez fosse mais que carne, mas não atentariam para algo tão irrisório em momentos como aqueles. Qualquer palavra ou sentimento não os definiriam. Invadiam as nucas com os lábios, exalavam suor, sensibilizavam o tato, deliravam com a visão dos próprios movimentos, entregavam-se ao instinto. Viviam um verdadeiro festim de sentidos, um zigue-zague de almas.
O ponto alto daquelas insanidades noturnas fora a desintoxicação de qualquer poluição mental. Independente de qualquer regra ou ordem imposta, eles dançaram aos sons da noite, meio descompassados. No fim, estamos todos presos em gaiolas bem menores que nós, nem notamos até sermos libertos, e a liberdade assusta, atrai, como tudo o que é novo. Um dia me disseram que usá-la de forma errada é só mais uma prisão, acompanhada quase sempre de impulso. Pelo menos naquele instante, mesmo presos um ao outro, foram livres. Como se a liberdade fosse um sentimento simples e tangível.
Thaís Bitencourt
toques especiais Alamo Henrique.
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