domingo, 25 de novembro de 2012

a chave do carro


Descobri que o fator causador da minha insônia não é a produção inadequada de serotonina pelo meu organismo e muito menos o estresse provocado pelo desgaste quotidiano. Esses fatores são de menos comparado a um desejo, uma vontade que chega a atordoar. Eu precisava daquela loucura planejada conscientemente e guiada pelo instinto. E por esta noite eu não ter feito o que para mim era necessário, não consigo pregar os olhos na esperança de que não amanheça enquanto eu não dormir, na expectativa da realização dos meus sonhos de acordada. Me faltou muito pouco para esta noite eu ser feliz. Ao mesmo tempo, um pouco tão grande tanto para chegar a ser irrealizável.

Thaís Bitencourt, a chave do carro.

sábado, 24 de novembro de 2012

avelar, 66

Um meio de chegar até você. Um meio de transporte. Um automóvel. Um carro. Ainda me faltam não sei que condições para ter um carro, mas sei que me faltam. Que assim seja. Mas estas mesmas condições não me impedem de roubar uma chave ou pegá-la emprestada. Destino já tinha, loucura também, então o que me faltava? A chave. O carro. A chave do carro. Estar nesta aventura me encheu de liberdade. Em nenhum momento apertou o coração pois, era adrenalina demais no sangue. Segui até aquela rua larga porém, para meu ser repleto de lembranças, intimamente estreita. Estava parada em frente ao teu recanto, por horas te imaginei descansando naquele lugar superaconchegante que conhecia pelas marcas que deixaram. Horas que foram suficientes para gerar desconfiança, o que aquele carro estaria fazendo parado ali? Vi a tua curiosidade pela janela, e logo ela se fez você. Haveria eu ganhado a noite. Haveria eu ganhado a noite? não. Meus planos eram maiores, não estava ali (só) para de ver, era uma desculpa para fugir. Fugir de mim mesma, e de tudo que me cercava. Me afastar, retirar, desviar, cair no mundo. Azular. Porém, lhe deixar aqui seria burrice, apesar de que te levando comigo, estaria levando partes de mim. Ahh, já não importava. Te liguei no número decoradíssimo, atendeu depois de cinco chamadas, ouvi a tua voz fingida que geralmente usaste no telefone, congelei por alguns segundos, contudo, desentalei. Desce aqui, vem aqui, vamos dar uma volta? A tua resposta foi instantânea e melhor do que ouvir um sim, eu te vi entrando no carro. Não disse nada, apenas acelerei. Riu de mim e se surpreendeu pela pré subestimação. No fim, foi tudo instigação sua, cada estímulo dos meus neurônios e suas sinapses eram guiados ora por tuas palavras, ora por reação de instinto ao teu perfume. E no fim de uma estrada, parei, mas não o bastante para raciocinar, ou seja, me arrepender. Só o tempo necessário para me aproximar de você, só o tempo de enlouquecer de vez, te atacar, a vista ficar turva, eu abrir os olhos e estremer da cadeira onde me encontrava completamente desnorteada sonhando, ou desejando, eu diria, o ápice da minha loucura de amor.

Thaís Bitencourt, azulando.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Presa

Pressa
Prensa
Pensa
Presa
Pesa
Pés
és
e
na pressa, prensa o pensar ficando presa no peso dos próprios pés.

Thaís Bitencourt, no peso dos próprios pés.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Azia da paixão
Aquieta-te e dorme,
ou reboliça e desperta,
mas fica de mente aberta
que ela vem e some.
Transcreve logo ou desista,
porque ela foge de você,
mas se tem amor ela insiste,
insiste em se fazer clichê.
Vai dando cor ao papel branco
desarma o ser
apenas com o próprio arranco
do que nunca quis suceder.
Alinha esses versos
ao colo do peito
para que sintam os afagos
de onde não há preconceito,
no Coração.
onde nasce ela, a poesia.
Azia da paixão.

Thaís Bitencourt, sofrendo de gastrite apaixonada, pior que a nervosa, supera a crônica.

domingo, 11 de novembro de 2012

E se eu pudesse me adiantar para ver o que ei de perder, nesta viagem descobriria o fim dos meus anseios, os resultados dos incentivos aos sonhos alheios que iriam um dia ser alcançados. E se eu pudesse me adiantar para ver o mundo nascer com um novo olhar, onde os vícios cicatrizados dariam lugar as sutilezas do ar. E se pudesse me adiantar, pois agora posso olhar para trás e ver o sépia amadeirado das folhas, porém e as suas cinzas, para onde o vento as levou? e o destino que essa combustão mudou, num ato desesperado de amor?
Uma vida inteira é o bastante para, ao som da espumas das ondas, imaginar a consequências de seus baques nas paredes rochosas que as encaram, mas o dano disso tudo, “a vida é curta para ver”.
E se eu pudesse me adiantar, na verdade não haveria sentido, e onde caberia o viço de viver dentre os tantos abalos costumeiros?

Thaís Bitencourt 

sábado, 10 de novembro de 2012

esqueci do espelho do banheiro

E eis me aqui após dias de pura precipitação, em busca de regular a respiração com um copo d’água. São quatro da manhã. Já foram as oito e o baque, as nove e a fuga em busca de socorro, as 10 e a calmaria sem sentido, e nas 11, que também já foram, foi quando sosseguei apenas para entender o porque da inquietação. As 12, quando o tique do relógio desesperava, acompanhado do taque que agoniava, as horas não passavam. Eu queria que passassem, queria sentido para presenciar o próximo amanhecer, pois por alguns minutos, por displicência, esqueci do espelho do banheiro. Levantei, tomei a água. Na verdade não era o líquido incolor que teria o poder de regular o batimento forte do meu coração e os pensamentos confusos da minha mente. Mas ainda sim, tomei a água. Fiquei zonza, estava tonta, faltava chão. E onde estaria a claridade do grandioso sol para me alertar um pouco, para que eu abrisse as janelas e respirasse ar novo, e ouvisse também o assobiar do vento, que sussurraria no meu ouvido palavras esperançosas. Mas as horas não passavam. Haviam milhões de questões e (pareciam) milhões de horas para remoer tudo, digerir cada palavra sem sentido. E não havia ninguém (específico) para decifrar toda conjunção, que naquele papel, separava vidas mais do que unia palavras. Era uma imensa, eterna madrugada. Eterna porque  passou, mas a partir dai nada foi igual e eu sempre levarei na bagagem um pedaço daquele amanhecer. Talvez assim melhor fosse, pois só descobri tudo isso quando levantei, depois da água, fui ao espelho do banheiro e me vi. Joguei os cabelos de pontas sem vida, e olhei nos meus olhos vidrados. Encontrei aquela questão, que talvez fosse a mais inicial de todas, que desde o momento que vim ao mundo, deveria saber. Eu olhei e disse: Olha para mim e me ama. Mas errada, logo me corrigi, e soltei com mais firmeza: Olha para ti e te amas. Pois, este é o certo a se dizer, não só a um reflexo. Eu deveria saber me amar. 

Thaís Bitencourt, esquecendo do espelho do banheiro