sábado, 10 de novembro de 2012

esqueci do espelho do banheiro

E eis me aqui após dias de pura precipitação, em busca de regular a respiração com um copo d’água. São quatro da manhã. Já foram as oito e o baque, as nove e a fuga em busca de socorro, as 10 e a calmaria sem sentido, e nas 11, que também já foram, foi quando sosseguei apenas para entender o porque da inquietação. As 12, quando o tique do relógio desesperava, acompanhado do taque que agoniava, as horas não passavam. Eu queria que passassem, queria sentido para presenciar o próximo amanhecer, pois por alguns minutos, por displicência, esqueci do espelho do banheiro. Levantei, tomei a água. Na verdade não era o líquido incolor que teria o poder de regular o batimento forte do meu coração e os pensamentos confusos da minha mente. Mas ainda sim, tomei a água. Fiquei zonza, estava tonta, faltava chão. E onde estaria a claridade do grandioso sol para me alertar um pouco, para que eu abrisse as janelas e respirasse ar novo, e ouvisse também o assobiar do vento, que sussurraria no meu ouvido palavras esperançosas. Mas as horas não passavam. Haviam milhões de questões e (pareciam) milhões de horas para remoer tudo, digerir cada palavra sem sentido. E não havia ninguém (específico) para decifrar toda conjunção, que naquele papel, separava vidas mais do que unia palavras. Era uma imensa, eterna madrugada. Eterna porque  passou, mas a partir dai nada foi igual e eu sempre levarei na bagagem um pedaço daquele amanhecer. Talvez assim melhor fosse, pois só descobri tudo isso quando levantei, depois da água, fui ao espelho do banheiro e me vi. Joguei os cabelos de pontas sem vida, e olhei nos meus olhos vidrados. Encontrei aquela questão, que talvez fosse a mais inicial de todas, que desde o momento que vim ao mundo, deveria saber. Eu olhei e disse: Olha para mim e me ama. Mas errada, logo me corrigi, e soltei com mais firmeza: Olha para ti e te amas. Pois, este é o certo a se dizer, não só a um reflexo. Eu deveria saber me amar. 

Thaís Bitencourt, esquecendo do espelho do banheiro

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